Lúcio Packter

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

(atualizações semanais)

Frases e Pensamentos de Especialistas em Filosofia Clínica

A leitura da obra A Última Grande Lição, de Mitch Albom, me fez repensar nas interseções de EP’s que tenho em meu cotidiano e a forma como estas podem influenciar minha vida, tanto de forma positiva quanto negativa. Também me levou a perguntar: De que modo eu estou vendo o mundo e como estou mostrando este mundo às pessoas com as quais me relaciono? O que as pessoas estão aprendendo comigo? Que valores estou cultivando?

Assim como Mitch Albom, freqüentemente realizei deslocamentos longos no decorrer da leitura desta que considero uma obra repleta de poesia e sensibilidade. Também fui levada a meus tempos de faculdade e tentei identificar se tive contato com algum “professor Morrie Schwartz” nesta época. Viajei até minhas salas de aula e me questionei acerca de meu papel existencial de professora. Será que estou ensinando algo a mais além do conhecimento acadêmico? Será que, como o professor Morrie, estou prestando atenção em meus alunos? Ou são eles meros números?

Pude evidenciar com a leitura como na prática (já que a história é verídica) algumas interseções de estruturas de pensamentos podem ser determinantes. No caso dos personagens Morrie Schwartz e Mitch Albom, as interseções aconteceram de forma positiva, gerando aprendizados belíssimos. É claro que, talvez, para qualquer outra pessoa, reencontrar Morrie não significasse nada. Talvez se qualquer outro aluno tivesse reencontrado Morrie após dezesseis anos, este livro nem seria escrito. Tudo depende da forma como a pessoa se estruturou existencialmente.

Julmara Goulart Sefstrom
Cocal do Sul – SC

Não é raro defrontar com conjunturas exclusas na comunicação. Concebemos, pois, que a aptidão de testemunhar pressupõe o ato de comunicar. Assim, a intencionalidade da comunicação circunstanciada é condição para o testemunho. Portanto, entendemos que uma publicação póstuma se enquadra como testemunho, uma vez que, naquela circunstância, a pessoa desempenhou uma comunicação: escrever no diário. Em Filosofia Clínica, correlatamente, identificar as Armadilhas conceituais e evitar prévios Agendamentos obtém resultados promissores.

Não é raro identificar casos de expressões involuntárias, consequentes do funcionamento corporal, de condições externas e de situações aleatórias, de tal forma que nem sempre nos comprometemos com elas. Uma expressão qualquer não é condição suficiente para o testemunho; podem soar como palavras soltas ao vento. A fim de evitar situações equívocas, é importante considerar, razoavelmente, o contexto da comunicabilidade. Em Filosofia Clínica, equivalentemente, a pacienciosidade da Historicidade e dos Enraizamentos é imprescindível no processo terapêutico.

Ronaldo Miguel da Silva
Porto Alegre – RS

Filosofia Clínica, inovação de considerável relevância na utilização e concepção da filosofia geral e, sobretudo na peculiaridade com a qual enfoca os indivíduos humanos.Passou a ser divulgada em meados da década de 1990 e vem conquistando um crescente número de adeptos e praticantes em diversas cidades deste país, não só de filósofos, mas também de profissionais e estudiosos de outras áreas como saúde, educação e humanidades em geral.

Um dos elementos distintivos da Filosofia Clínica é o seu caráter prático-aplicativo. O exercício especulativo ganha pouco espaço se comparado ao uso prático adaptado de metodologias e conceitos oriundos de diversos pensadores e correntes filosóficas sempre destinados ao serviço de uma prática terapêutica. A resultante dessa composição tão diversificada que caracteriza a Filosofia Clínica está na vanguarda de nosso tempo histórico, destacadamente no que se refere à sensibilidade com que procura lidar com as pessoas. Nela cada indivíduo é concebido por uma perspectiva única desde sua comunicação até os elementos mais densos e abrangentes da existência. É a busca do autêntico respeito pela alteridade de cada um. Desconsidera rótulos preestabelecidos acerca do outro.

Ao observar a gênese e os potenciais da Filosofia Clínica assentada em seus princípios éticos e humanísticos como norteadores do árduo trabalho que é desbravar este mundo, pode-se vislumbrar um devir colorido por tons tão avançados que os nossos prismas contemporâneos jamais registraram. Inéditas configurações intelectivas e enfoques mais lúcidos estão sendo edificados.

José Gabriel Oliveira Lima
Campinas – SP

Para os profissionais que trabalham diretamente com as pessoas é urgente a necessidade de resgatar o homem para si mesmo, de ampliar sua visão, sua percepção, adquirindo uma mais abrange visão de vida e compreensão do universo da existência humana para propiciar às pessoas um encontro mais verdadeiro consigo e com a vida superando um olhar individual reducionista que transforma o oceano em um pequeno aquário com todas as consequências dessa condição. Reducionismo e radicalismo são prisões, pois impedem resposta livres e responsáveis às grandes questões da existência.

A ação de filosofar favorece a abertura, a busca, a conviver com a pergunta e com a hesitação. A Filosofia Clínica pretende, diante da observação de um ser humano histórico, contingente e mutável, baseada nas mais importantes conquistas filosóficas acumuladas durante a história auxiliar a compreensão do próprio homem.

José Alem
Campinas – SP

A ciência já observou que o filho usa da mãe, também pelo leite materno, uma carga imunológica que perdura até que seu físico esteja pronto para produzir sua própria imunologia. Não seria absurdo considerarmos que o mesmo possa ocorrer no campo das ideias.

Lúcio Packter não vê a necessidade de definir a figura da alma na Filosofia Clínica, mas fala de funções normalmente atribuídas a ela para explicar alguns efeitos que podem ser somatizados no corpo, e que não são o corpo. Na Estrutura do Pensamento, o tópico instrumental Autogenia tem a propriedade de analisar as dialéticas que ocorrem dentro da própria estrutura. Também ao utilizar elementos constituintes da Lógica e da Matemática, Packter obrigatoriamente estaria se utilizando da figura da dialética ou a maneira como os elementos matemáticos se combinam.

Roberto de Souza Costa
Brasília – DF

Ouvir significa muito mais do que reunir dados por meio da audição. Ouvintes dotados de empatia usam elementos como os olhos para detectar sinais físicos das emoções de seus filhos. Usam a imaginação para verem a situação da perspectiva da criança. Usam as palavras para traduzir de forma tranquilizadora o que estão constatando, podem auxiliar a criança a nomear as emoções.

Mas o que é mais importante: usam o coração, o que é determinante na EP, para que possam sentir verdadeiramente o que a criança está sentindo. Neste sentido, nomear as emoções e demonstrar empatia podem ser coisas que andam muito próximas.

Jacson Raul Tiedt
Blumenau – SC

Tudo que existe é ser. Os seres que podem ser coisas inertes, ideias ou organismos vivos povoam a nossa realidade. A reação do homem diante da realidade não fica restrita apenas à constatação das coisas existentes, mas ao interagir com a realidade o homem é de alguma maneira afetado por ela. As relações das pessoas com seus semelhantes e com seu ambiente não surgem do nada; elas se desenvolvem na cultura social a que pertencem a partir de seus mundos existenciais.

Segundo Lúcio Packter, o modo como está existencialmente cada pessoa é o que define sua Estrutura de Pensamento (EP). Isso significa que a EP de uma pessoa consiste em seus pensamentos, sentimentos, entendimentos, valores éticos, valores religiosos, valores cognitivos, enfim, tudo o que estiver no interior da pessoa. Resumidamente, a EP de uma pessoa é tudo o que ela é. A EP é aquilo que nela, só dela é. E de mais ninguém.

José Teles Lopes
Fortaleza – CE

Levinas constrói a ética da subjetividade baseada na presença da outra pessoa, esta relação entre o sujeito e o outro precede o conhecimento e não pode ser reduzida a este. Levinas explica no começo de Totalidade e Infinito que o outro metafisicamente desejado não é o outro como o pão que eu como, pois, neste caso, o outro seria absorvido ou deglutido tornando-se parte da minha própria identidade. O Outro absoluto no qual Levinas constrói sua filosofia é aquele que desperta o desejo metafísico, o transcendente que não pode ser reduzido às minhas categorias de entendimento.

Flavio Horwitz
Jerusalém – Israel

Muitos filósofos do Ocidente e do Oriente teriam chegado a uma conclusão: o homem era tido como uma marionete, movido pelas paixões cegas e pelas circunstâncias. Tudo era dominado pelo destino, nada fugia do seu poder, e o Universo estaria condenado a ficar eternamente no mesmo círculo, então diversas doutrinas sobre a salvação surgiram a partir da consciência da imperfeição do Mundo.

Platão, por exemplo, apresenta como saído para a Humanidade a estrutura mais justa da sociedade; já Buda aponta como solução a fuga do mundo e a contemplação mística. As duas saídas têm como base a tese de que nem o homem, nem a divindade, têm formas para provocar mudanças substanciais no sistema do Mundo. Logo, o que se conseguiria era um alívio parcial do sofrimento ou a esperança no fim da matéria.

Os persas julgavam que o Bem e o Mal são apenas os dois pólos opostos e equivalentes da mesma realidade, como se fossem dois deuses antagônicos.

Angela Alves Sá Pereira
São Luís – MA

A medicina e a indústria farmacêutica evoluíram muito e, em conjunto, conseguiram aumentar significativamente a expectativa de vida do ser humano, com solução para a grande maioria das doenças físicas que acometem o indivíduo.

Na área psíquica, no entanto, praticamente limitam-se a amenizar os sintomas e a condenar a pessoa a uma eterna dependência de medicamentos com, no máximo, recomendações banais (superfiiciais) de mudança de hábitos, tipo organize sua agenda, pratique exercícios físicos, reserve tempo para o lazer, trabalhe menos… sem levar em conta que muitas vezes são exatamente esses afazeres que ajudam o indivíduo a não “enlouquecer” .

Tomemos como exemplo uma jovem dona de casa com 34 anos de idade, diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Ela tem insônia, irritabilidade, fadiga, angústia, palpitação, falta de ar, dificuldade de concentração… Esses sintomas decorrem de constantes infidelidades do marido e uma sensação de impotência diante do fato; a sogra que a acusa constantemente de ser uma mãe má e que tem a chave de sua casa e entra sem avisar, o que também a irrita, pois a casa é sua e ela sente-se invadida na sua privacidade, mas não tem coragem de tomar qualquer atitude; o medo de ser abandonada de novo, pois seu pai morreu cedo e seu padrasto tentou molestá-la. A prescrição de um ansiolítico ou antidepressivo e mudanças de hábitos lhe trarão a cura?
Nesse ponto a Filosofia Clínica é imbatível, tanto no diagnóstico preciso através da colheita da historicidade, quanto em apontar caminhos existenciais para cada pessoa em particular, diferente dos tratamentos em série que prescrevem antidepressivos e os mesmos conselhos indistintamente e padronizado da medicina.

No caso em questão, por exemplo, ajudando-a a superar e resolver dentro de si a ausência do pai; ajudando-a a enfrentar a sua sogra e assumir o controle da sua casa, ou a contornar a situação de forma diplomática, ou a compreender sua sogra e ver que ela é que é infeliz, tentando amá-la e ajudá-la, ao invés de se sentir invadida, ou qualquer outro caminho que a sua estrutura de pensamento mostre ser o melhor para ela. Em relação ao marido da mesma forma, desde um rompimento da relação e auto valorização até uma nova forma de enxergar o casamento.

O fato é que ao lidar com a verdadeira causa da ansiedade (“causa última) e não apenas com os sintomas que o levaram ao médico (“causa imediata”), o filósofo clínico propõe uma solução verdadeira, ao invés de uma maquiagem que muito frequentemente conduz a um outro problema que é a dependência química.

Laurentino Aguiar Rodrigues
Juazeiro – BA

O grande teórico da música grega antiga foi Pitágoras, considerado o fundador de nosso conhecimento de harmonia musical. Também foi ele o sistematizador da associação de cada modo com determinado estado de alma, imbuindo-os de uma ética especial. Por exemplo: o modo dórico era considerado capaz de induzir um estado (ethos) pacífico e positivo; o modo frígio era considerado subjetivo e passional, uma sensibilidade hoje em grande parte perdida, convencionalmente usada para produzir uma impressão animada e alegre; o modo de escala menor, usada para descrever estados melancólicos ou introspectivos.
A música exerce, portanto, um efeito curativo sobre algumas pessoas e hoje é usada como recurso terapêutico, razão porque, em Filosofia Clínica, pode ser aplicada, conforme a disposição do partilhante, para isto

Francisco Soares de Oliveira
Teresina – PI

Qual a melhor forma de avaliar uma aluno, seria um outro ponto importante, também levando em consideração o estudo da EP dos alunos. O que temos como avaliação hoje, são memorizações padronizadas ou textos contextualizados seguindo um comando lógico e rígido, chamados de habilidades e competências, onde as nuances cognitivas de cada aluno não são levados em consideração, nem tão pouco sua situação sócio-econômica e familiar, dentre outras. Do ponto de vista da Filosofia Clínica a educação deve buscar no aluno a sua forma única e singular para uma melhor aprendizagem, e essa forma se expressa na capacidade estrutural de cada aluno de demonstrar a partir de sua estrutura mental e de pensamento o melhor caminho. Em suma, não existe uma fórmula pronta na aprendizagem para todos, deve-se construir uma pra um único aluno, sua fórmula própria, seu canal de busca própria, a sua própria medida filosófica clínica.

Jean Carlos Dantas
Fortaleza – CE

Na semana passada fiz uma visita a um amigo, cuja profissão é a medicina ocupacional, durante um longo diálogo ele explicou-me o que é a sua profissão, informando-me em meio ao seu discurso recortado de observações filosóficas, que a sua profissão recebeu uma certa carga de exclusão social por parte da medicina clássica ou tradicional, por ser muito filosófica.

Seria isto um pré-juízo? É evidente que sim! A minha afirmação também é um pré-juízo.

O homem é um construtor de cultura e por natureza um construtor de pré-juízos. Essas verdades subjetivas que tecemos ao longo de nossa historicidade, que denominamos de pré-juízos, torna-se objetivada na expressão verbal de milhares de pessoas, nos mais variados contextos, quer seja no social, cultural, político ou econômico, atravessando séculos e tornando-se histórico e dinâmico.

O pré-juízo histórico ganha força de exclusão social quando a sua fenomenologia se traduz com a roupagem das ditas “patologias médicas”, termo tão estranho, a nós filósofos clínicos.

Noel Carlos de Souza
Campinas – SP

É dando significado a determinados conteúdos que algumas pessoas se submetem à aprendizagem, sendo esta, a verdade subjetiva desse aprender.

Ao descobrir algo, percebo que aprendi algo novo. É estudando a mim mesmo que posso descobrir como compreendo aquilo que sou, e tomo-me como referência diante de novas possibilidades.

Quais seriam os parâmetros desse ato de conhecer? Qual seria a sua essência? Seria conhecer o que se conhece. Seria assim, descobrir o quanto se conhece, observando uma forma sistematizada que auxilie o pensar sobre a vida, e o situar-se melhor diante de si, com os demais e com o mundo ao seu redor.

Veronica Simão Galletti
Dourados – MS

A Filosofia Clínica é uma terapia que percebe o homem na sua pluralidade e também na sua singularidade. É maravilhoso como, pela historicidade, o partilhante se dá a conhecer ao filosofo clínico, que o faz mediante o conhecimento e o domínio do método pelo qual a Filosofia Clínica se estrutura. Cada Estrutura de Pensamento se comporta de uma maneira e, com este trabalho pude reafirmar que , em Filosofia Clínica, os dados nunca devem ser trabalhados isoladamente, mas conjuntamente, dentro do contexto que nos é dado a conhecer.

Arlei Castilhos
Dourados – MS

Chegamos então ao problema da impossibilidade de acessar os estados mentais, senão em primeira pessoa. É possível que um exame de neuroimagem traga uma leitura precisa ? Fechar um diagnóstico ou estabelecer uma terapia medicamentosa levando em conta apenas dados estáticos decorrentes da observação matematizada de um organismo não seria impreciso? Talvez um grande equívoco? Qual seria uma postura ética? Seria possível uma postura que buscasse olhar a questão não apenas tentando dar uma resposta, mas que tentasse entender sua raiz?

A filosofia clínica vem mostrando que existe a possibilidade de criar saídas e novas maneiras de encararmos nossas dores. Enxergar-se como uma singularidade que existe a partir da coexistência com nossos contextos ajuda a criarmos novas rotas de fuga. Somos plásticos, a história mostra que nos constituímos e prevalecemos como seres criadores. Como um artista que lançado ao seu fazer, busca criar uma obra singular, uma obra que possibilite novas leituras da vida, nós também precisamos construir nossas vidas como uma obra de arte, uma criação singular que exige instrumentos e maneiras singulares, que necessita de um tempo e espaço particulares, que necessita de circunstâncias específicas para existir. Uma obra de arte que tem traços específicos e que não se acha em outro lugar. Algo único, um ensaio constante que não exige um produto definido e sim uma obra sempre por tornar-se. SingulArte!

José Ricardo Soares Reis
Porto – Portugal

O posicionamento da Filosofia Clínica, quanto àqueles que sofre com a dor, seria mais próximo a um organismo com seu ambiente, observando suas categorias: Assunto, Circunstância, Lugar, Tempo e Relação.

De maneira despretensiosa, a Filosofia Clínica não guarda consigo a pretensão de ser o “santo graal” da compreensão humana, nem julga necessário desvendar esta complexidade ou até mesmo sanar as inquietudes da mente. Na verdade, constitui-se de um “não saber”, por isso a postura de busca diante do desconhecido ser constante, mesmo diante de exames que revelem, substancialmente, circunstâncias óbvias de enfermidade. “não há em filosofia, padrões previamente estabelecidos para a atuação do terapeuta. Há uma metodologia que orienta a atuação, com bastante flexibilidade. É importante ao filosofo clínico, por exemplo, manter-se no ‘não saber'”(AIUB, 2010, p.36).

Situar a filosofia clínica e sua abordagem na compreensão da dor, e especificamente afetivo-emocional, parece um campo minado, pois traduz a todo o momento um cuidado cheio de meandros, que ao olhar mais cético aponta a certeza da falência da proposta de escuta.

No entanto, como observado no início deste escrito, a dor possui também em uma dimensão comportamental. Circunstancialmente, aparece ao filosofo clínico a narrativa da dor por meio da oralidade, mas a linguagem é uma manifestação viva e toca diferentes formas de expressividade e esteticidades, sejam estas brutas ou seletivas.

Almir José da Silva
São Paulo – SP

Dentro da filosofia clínica não reconhecemos os traumas como patologias, como doenças incuráveis, mas como movimentações existenciais capazes de trazer dor e sofrimento. E, se estes efeitos não são universais, se existem pessoas com estruturas plásticas o suficiente para se readaptarem após um evento traumatizante, não devemos descuidar, e muito menos minimizar o sofrimento daquelas que estarão carregando em suas estruturas de pensamento as sombras de um fato doloroso, cujos ecos ainda reverberam em suas vidas.
As descobertas feitas pelas neurociência reforçam nossa busca e confiança por trazer alívio àqueles que sofrem. Ao revelar a cada nova descoberta como funcionam nosso cérebro e nossa mente, oferecem respaldo biológico e científico à forma como atuamos em clínica. Temos um cérebro capaz de criar e recriar sua própria história e de acreditar tanto nessa história até que ela passe a ser realidade, a sua realidade. E isso nos mostra que já trazemos “de fábrica” uma poderosa ferramenta na luta contra os efeitos dolorosos de vivências conhecidas como traumas.

Daniel Fernandes Silva
São Paulo – SP

Creio que a insistência de muitos filósofos clínicos (terapeutas), na prioridade da teoria compara-se a um discurso de sabedoria.

Ao abordarmos uma história como terapeutas é imprescindível nos darmos conta dos pressupostos que a justificam ou legalizam. A ignorância destes ou a marginalização implicam em que acabemos por não saber o que estamos falando.

Trata-se de uma atividade que se torna necessário à exploração constante da prática e a sua permanente avaliação e reformulação. Acredito que a pesquisa na teoria possa desenvolver uma avaliação da prática e, permitirá parar, reavaliar e desenvolver novas maneiras de abordar o atendimento.

Fico preocupada ao notar que alguns colegas “alunos” ao iniciar o estágio supervisionado têm pressa em encontrar uma forma mais rápida para colher a historicidade, exames categoriais e submodos. A idéia é que o atendimento fosse através de encontros pelo MSN, que o partilhante enviasse por e-mail sua história, que quanto mais rápido iniciasse os procedimentos melhor para o partilhante, etc, coisas assim.

A impressão geral de que se requer muito pouco trabalho. Mais o que significa este muito pouco? Antes de tudo se refere provavelmente o conhecimento rotulado “prático”.

De modo nenhum quero insinuar com isso que não seja importante o uso de nosso entendimento “teoria”, saber fazer envolve o terapeuta a conhecimentos bem mais do que observar.

Vejo também mais interessante, de perto, sem pressa, verificar como a pessoa relata sua história, entender o movimento de seu pensamento, como compõe suas conclusões.

Filósofos clínicos não se deram conta das implicações filosóficas e existenciais que essa mudança vai nos causar. Eu seria mais cautelosa em relação a mudanças somente para acompanhar a sociedade cuja velocidade aumenta as demandas sociais.

O diferencial da Filosofia Clínica de outras atividades terapêuticas está exatamente neste “tempo” do outro, estar sem pressa para caminhar no ritmo de seus passos. E a forma humanizada, será que ao encurtarmos o processo para atender a demanda não estaríamos fazendo como nos postos de atendimento médicos, clínicas de terapias? A 1ª vista, poderia parecer que esta condição nos leva ao risco de um trabalho de aconselhamento com risco extremo de mutilar.

Deixaríamos de ter o atendimento personalizado e passaríamos ao atendimento generalizado.

Izabel Cristina Pereira
Poços de Caldas – MG

A transformação do liberalismo para o utilitarismo disciplinador, no século XIX, faz o Estado e a família assumirem papéis para individualizar e normatizar os indivíduos. Sobre esta nova dinâmica, na obra Em defesa da sociedade, Foucault considera, como acontecimento importante para os séculos XVII e XVIII, o aparecimento de um novo tipo de exercício de poder, atingindo não só o indivíduo em si, mas seu corpo, seus gestos, atitudes, discursos, aprendizagem e vida cotidiana.

“[…] essa nova mecânica de poder incide primeiro sobre os corpos e sobre o que eles fazem, mais do que sobre a terra e sobre o seu produto. É um mecanismo de poder que permite extrair dos corpos tempo e trabalho, mais do que bens e riqueza. É um tipo de poder que se exerce continuamente por vigilância e não de forma descontínua por sistemas de

tributos e de obrigações crônicas. […] define uma nova economia de poder cujo princípio é o de que se deve ao mesmo tempo fazer que cresçam as forças sujeitadas e a força e a eficácia daquilo que as sujeita. (FOUCAULT. 2002, p. 42)”.

Miguel Gomes Filho
Campo Grande – MS

Entre mim e o outro existe um infinito. Dizer que conhece o outro é negar este infinito sagrado. O que eu conheço da pessoa que se encontra à minha frente? O outro é como um iceberg. Vemos apenas uma fração que, às vezes, ele se permite mostrar; a maior parte está escondida. Não respeitar este infinito que existe entre o outro e eu é negar a existência de Deus no outro, é negar o outro como sagrado, o outro como religião.

Quantas vezes deixamos de ver como outro como sagrado e, no primeiro deslize, no primeiro erro, reduzimos o outro ao ato? No momento em que reduzimos o outro ao erro cometido, então estamos nos afastando do sagrado. O outro é muito mais que aquele ato cometido por ele, mesmo sendo um ato monstruoso.

Beto Colombo
Criciúma – SC
Trecho de O Velho Bah

Na Filosofia Clínica muitos casos diagnosticados como TDAH seriam vistos de outras formas, pois os mesmos sintomas poderiam ser compreendidos como modos diferentes de ser de cada pessoa. Uma pessoa que se descreva agitada, impulsiva, com dificuldades de concentração e desatenta, será observada a partir de sua própria referência, de seu contexto.

Observando tais dados, é possível que o filósofo clínico perceba, por exemplo, a evidência do tópico Ação na Estrutura do Pensamento da pessoa. O tópico Ação refere-se ao modo como os conceitos estão associados na malha intelectiva da pessoa, para além do que se pode observar externamente. Investiga-se então como se dá a associação conceitual e suas variações mais importantes: como se formam as ideias e a relação destas com as ações externas; a movimentação e velocidade das ideias, em diversos contextos e os conflitos entre elas. Observando tais dados, descritos pela pessoa, é possível que narrativas como as que favorecem o diagnóstico do TDAH sejam compreendidas e encaminhadas de outras formas.

Márcia Avelino
São Paulo – SP

No começo de qualquer pesquisa sempre existe uma dúvida. Na busca por compreensão instituímos métodos de pesquisa, discutimos formas de fazer ciência, elaboramos métricas para raciocinar, chegamos a acreditar que a verdade já fora descoberta. Nada mais equívoco, não há verdade plena de outrora que não tenha sido problematizada.

Portanto, durante o processo clínico, o filósofo encontra-se como aquele que aprende e aplica a epistemologia, no intuito de empreender uma prática clínica que seja pertinente ao não saber inicial, ao cuidado para não direcionar o partilhante com perguntas ou afirmações que sejam frutos das observações primeiras ou generalizações prévias.

César Mendes da Costa
São Paulo – SP

Salvar o homem da desumanização é a maior tarefa do nosso tempo, e mostrar a importância da participação do sujeito no processo formativo, conscientizando-o da própria identidade, da dignidade e valor que lhe cabe, da sua missão no mundo, é possível através da aplicabilidade da Filosofia Clínica que oferece o auxílio necessário para pensar a vida, a existência, a natureza, para aperfeiçoá-las, gerando benefícios a si próprio e também à coletividade.

Também Edith Stein foi um exemplar humano não só inteligente, mas de uma sensibilidade e intuição muito além das mulheres e homens de seu tempo. Já enxergava com precisão o papel e dignidade do homem. Seus prejuízos, muita serenidade para mensurar o que surgir através da interseção, sinceridade para dizer sim ou não a quem a procurar, e ser muito, muito humano.

Diná Figueiredo Mascarenhas
Campo Grande – MS

No Livro Filosofia Clínica no Hospital e Consultório – Propedêutica, o professor Lúcio Packter inicia a Obra contando a História do Pescador Santiago. O personagem da história faz a autobiografia de acordo a situação que o cerca e a vivencia. O que Santiago apresenta e representa é o que ele vive diariamente na pesca no mar.

Talvez, fazendo um paralelo com a vida de Santiago, todos nós podemos ser velhos e novos no mesmo tempo ou não. Guardamos coisas antigas no nosso intelecto (T. 06) ou somente coisas novas, que podem se atualizar no percurso de nossa história renovando-as e envelhecendo-as de acordo as necessidades e buscas.

O Filósofo Clínico pode sempre que receber alguém entrar mar adentro que é a vida do partilhante. Outros preferem entrar sozinhos e que quem ouve fique somente observando na praia. No lugar de um consultório ou divã a Filosofia propõe o barco. Esse trajeto pode ser feito com o barco para conhecermos e entendermos o contexto que o pescador Santiago se encontra. Neste percurso a história de vida pode ser construída ou reconstruída do jeito que o partilhante for contando.

Edson Cleber Negri
Cuiabá – MT

As verdades são politicamente corretas em muitas situações, mas em tantas outras a “mentira” é necessária e confortante. Por exemplo, você contaria a verdade a seu filho de nove anos se ele te perguntasse quando foi sua primeira experiência com maconha? Você contaria a sua filha que ficou grávida aos treze e fez um aborto? Contaria a sua esposa que teve um caso com a vizinha a dez anos atrás se ela perguntasse? Aqui o imperativo categórico kantiano não nos serve.

Devemos sempre contextualizar as questões e analisar com calma as historicidades envolvidas para que possamos, em clínica, perceber qual a melhor “verdade” que cabe em cada circunstância e situação. E segundo o próprio House: “Há uma razão para a mentira: funciona.”

Marta Claus
Uberlândia – MG

Chamo de namoro o prazer que cada um mantém de dançar o ritmo que o outro propõe. O namoro é esse equilíbrio alegre de bailar sem exigir partitura, roupa apropriada, local preparado. O namoro respeita o improviso e o inesperado como quem abre os braços para acariciar o vento. O namoro é o espaço no qual cada um pode ser um e ainda é acolhido pelo outro, recebido pelo outro. E, tudo isso é diferente dos casais que perpetuam a imagem congelada do que foram. Imagem congelada é aquela percepção, entendimento que se guarda do outro, que aprisiona o outro, que não permite ao outro mexer um milímetro fora dessa imagem que nós construímos na nossa cabeça e não deixamos o outro escapar. Imagem congelada é a camisa de força que colocamos o outro. Ela é mental, emocional, invisível, mas muitas vezes perceptível.

Kélsen André Melo
Belo Horizonte – MG

A filosofia não é pop, assim como diz a filósofa do fantástico, Viviane Mosé. Mas ela pode se tornar pop se as pessoas não tiverem um método ao iniciar as leituras e debates filosóficos. De modo bem simples método é a concepção de mundo de um determinado filósofo. Todos nascemos filósofos. Mas filosofamos espontaneamente. O pensar é inato. Pensador é todo homem. Mas pensar por si só não basta, é preciso saber pensar. O pop então seria o filosofar espontâneo, o que também não basta. O essencial é se elevar culturalmente, o que não significa aderir às filosofias prontas. Filosofar, embora seja uma atividade cotidiana, não pode ser tratada como modismo. Ora, se a elevação cultural e intelectual fosse possível através de manuais, muitos já teriam se elevado quando da publicação da obra O Mundo de Sofia. No entanto, o filosofar permanece espontâneo e medíocre. Sem desconsiderar a seriedade de tais obras, pois reconhecemos que muitos se enveredaram na filosofia por intermédio delas.

Como tudo na vida, filosofar requer tempo. Mas este é uma questão de escolha e mudança de hábitos – ou você escolhe crescer intelectualmente ou você escolhe o caminho, os produtos e as idéias que outras pessoas pensaram para você. Quanto a primeira escolha somos responsáveis por ela, quanto a segunda já não podemos reclamar. Enfim, comprar pensamentos prontos e idéias padronizadas nos parece mais fácil do que nos debruçarmos sobre nós mesmos e descobrir o potencial do nosso pensar.A filosofia não pretende ser auto-ajuda, nem tem em si uma finalidade prática. Mas ela é justamente uma das maiores forças espirituais que nos impedem de soçobrar na barbaria e nos ajudam a permanecer homem e vir a sê-lo cada vez mais.

Silvia Soares Santana
Uberlândia – MG

Filosofia Clinica é a arte de levar as pessoas a se encontrarem existencialmente através de um novo olhar em sua historicidade e de descobertas de novas maneiras para viver melhor consigo mesmo, com o outro e com o mundo.

Uma arte construída pelo rigor do método, pela expressão máxima de humanidade por parte do filósofo clinico e pelo inteiro compromisso por parte do partilhante.

A Filosofia Clinica desenvolve o trabalho através da construção compartilhada a partir de cada pessoa e não de conhecimentos a priori. O respeito à individualidade e à subjetividade são bases para o desenvolvimento da terapia feita pela Filosofia Clinica.

Darcy Nichetti
Curitiba – PR

Entendo que a filosofia clínica representa um esforço teórico-prático de resgatar e exercitar a humanidade, em nós e no outro. Uma disposição e abertura ao diálogo, a escuta atenta ao modo de ser e de existir do outro para ajudar em suas demandas. Nesse sentido a clínica filosófica representa uma construção ética de acolhimento a singularidade de cada indivíduo. Se bem encaminhada e coerentemente praticada a filosofia clínica se constitui numa ciência que se constrói para cada pessoa, sem rótulos e tipologias, um encaminhamento que se diferencia pela relação personalizada intersubjetiva entre o partilhante e o filósofo clínico.

Everson Araujo Nauroski
Curitiba – PR

Como educamos um filho? Se ele entrar numa sala repleta de gente e começar a espernear, gritar e querer chamar a atenção, como é que vamos nos sentir? Se acaso ele decide quebrar as pernas das cadeiras da sala de visitas nós deixamos? Bem, assim é com nossos pensamentos. Devemos educá-los se não queremos sofrer por causa deles.

Pensar o que quiser desde que não se expresse o que nos vai à mente faz com que o pensamento deixe de ser um aliado e passe a ser um inimigo, hostil à nossa paz de espírito. Imagine quando recebemos um diagnóstico. Por vezes, é uma sentença. A imagem pesada desta sentença passa a nos acompanhar quando dormimos, quando almoçamos, quando trabalhamos, saímos, estamos com amigos queridos. Isso é pesado, não nos ajuda e deixamos de fazer todas as coisas que poderíamos estar fazendo com gosto e suavidade. Por que é permitido ao pensamento fazer o que quer?

Liana Zilber
Curitiba – PR

Retomando o pensamento da irmã de caminhada Ubiracy, cada pessoa tem um remédio. Assim também, cada qual irá se adaptar a uma religião, ao estudo, às estruturas de carreira e lazer. Opções direcionadas por culturas diferentes. E como disse há muito tempo um amigo, durante um curso esotérico, “se nós nem conseguimos realizar o que é deste mundo, como alcançar o que é do outro?”

As coisas estão aí para serem vividas. A glória para uns seria jogar as emoções e os desejos fora para conseguir se levar uma vida coerente com princípios e metas; no entanto, são partes do ser que às vezes conseguem ser silenciadas, noutras não; às vezes conversar ajuda, substâncias ou doutrinações resolvem temporariamente, mas faltamente se cai no que se consideram os maiores defeitos; porque é preciso lutar com eles.

E, além disso, é preciso se perdoar por recair em erros que se trabalha para modificar, apagar; contudo, houvesse perfeição, a história seria outra e o trabalho também.

A influência hormonal, a nutricional – alguns milagres acontecem; há dias em que se consegue ver a vida placidamente. Para alguns, o remédio está em si próprios, altamente racionalizados, capazes na condução de sua existência. Outros vão com muita sede ao pote. Estará rachado? Estará vazio? A água é salobra? Para estes, há a alternativa de ser a raposa das uvas. Ou de aprender escalada.

Muitos irão se engajar em grupos na tentativa de talvez entender, ao final, que a resposta estava em seu próprio silêncio.

Seus modos de melhora você conhece ou experiencia; há validade nas mais diversas formas de tratamento – ou de busca de bem-estar. Dos antibióticos à homeopatia, da cura pelas mãos à das ervas; da meditação ao canto. Dos homens de branco aos elementais da natureza.

Vania Dantas
Uberaba – MG

Como viver o mesmo dia duas vezes, se temos que fazer malabarismos para nos mantermos na corda bamba que a vida tem nos proporcionado? Fazer piruetas, dar cambalhotas, rolar, podem parecer coisas simples mas que se não tivemos a capacidade resolutiva na hora, podem resultar em grandes fraturas. O mesmo pode ocorrer na clínica, se não nos resguardamos aos devidos cuidados. Afinal, partilhar significa ir ao mundo do outro, andar lado a lado, seguir junto ao outro em sua historicidade e não tentar introjetar no outro as minhas opiniões, aquilo que eu ‘acredito’ que seja o melhor para ele. Construir para todos um modelo único de Estrutura de Pensamento, aquele que na minha representação seja o mais perfeito é determinar a criação do clone comportamental. Alertar, ainda penso eu seja o melhor método; respeitar, a melhor solução; o outro será sempre outro quando eu admitir a sua plasticidade, sua busca, expressividade, o seu direito de ser, igual a todos os outros em alguns quesitos, e muito diferente quando no homem são todos somados; simplesmente por ser um em cada um, e poder ser em si mesmo e naquilo que determinou como possibilidade de ser.

Olga Hack
Brasília – DF

Considerações acerca da aplicação prática no âmbito da filosofia é motivo de repugnância para muitos catedráticos dessa área do conhecimento, sob a alegação de que no ramo da filosofia não existe a possibilidade do sentido prático, porque ela é meramente teórica, portanto, sem nenhuma vinculação com a busca de solução de problemas, mas somente utilizada para questionar e buscar a verdade. Nestes termos, teria o conhecimento filosófico aplicabilidade de ordem prática? Poderia a filosofia ter como fim, também, auxiliar na solução dos problemas?

O que fazia Sócrates com sua maiêutica na Ágora em Atenas? Que ele filosofava todos sabemos, mas que também existia um sentido prático para ajudar seus interlocutores, nem todos graduados e entendidos da filosofia contemporânea querem compreende ou admitir. Pois bem, a filosofia pode sim servir de parâmetro de ajuda, ela pode sim auxiliar e proporcionar a execução de atividades práticas, que objetivam e facilitam o viver humano. O entendimento da filosofia como descrição histórica do processo de conhecimento ou como explicação da realidade universal em seu conjunto, deve continuar, entretanto, não se pode negar sua contribuição aos aspectos práticos do viver concreto com suas necessidades.

Francisco Tibério Araújo
Cajazeiras – PB

O filósofo José Maurício de Carvalho nos ajuda a refletir o problema da Educação que pode encontrar na filosofia pistas para uma educação humanística. Ele nos oferece a seguinte ideia: Vivemos um momento da história humana em que uma proposta pedagógica para ser válida precisa somar a preparação técnica a uma formação humanística ampla. Uma proposta pedagógica dessa envergadura tem como objetivo geral humanizar o uso da técnica ao mesmo tempo em que prepara o educando para a fruição dos bens do espírito marcantes numa civilização que está superando os problemas imediatos da sobrevivência material. Só uma educação articulada sob tais diretrizes impedirá a imbecilização das pessoas ou a generalização da incultura, outro nome para o fenômeno social que Ortega y Gasset anteviu e denominou de ‘ a revolução das massas’.

Nós temos um povo que aprecia muito a sua forma de viver: festas tradicionais que transcendem gerações e serve muito ao espaço escolar que nem sempre pode ter uma característica universalizada. Ortega y Gasset considera a existência humana como uma aventura situada. Logo, o problema da cultura aparece como muito importante porque o homem vive num meio cultural que ele faz, mas que também o faz. Para viver num meio complexo de exigências e sofisticação crescentes o homem necessita se educar não apenas desenvolvendo habilidades que facilitem o seu sucesso profissional e assegurem sua sobrevivência, mas também se preparando para responder às exigências ética e estética de seu grupo social.

José Geraldo Pereira da Mota
São Francisco – MG

O primeiro psiquiatra a utilizar o termo distimia em um artigo científico foi C. F. Flemming, em 1844. No entanto, à luz da Filosofia Clínica, a Estrutura do Pensamento, trata-se aqui de analisar e de pesquisar o modo como a pessoa está existencialmente, de forma individualizada, uma autobiografia que obedece a critérios para que a pessoa possa elaborar a historicidade. Como diz Lúcio Packter: “o filósofo clínico procura indícios de dados da experiência, os pré-juízos, as verdades que a pessoa carrega e que dizem respeito às vivências”.

O que percebemos em nossos partilhantes é se vão querer resolver esses problemas existenciais, se desejam perceber estas particularidades de vida ou se contentarão em apenas um “diagnóstico”, um rótulo para poderem justificar as suas características.

Rodrigo Oliveira Silva
Campo Grande – MS

Tive a honra de ser aluna de Lúcio Packter, uma das pessoas de mente mais brilhante que eu conheço, de um pensamento límpido, desapegado, abnegado, empreendedor, estudioso, ele é um monstro do pensamento. Ele consegue ser profundo e leve ao mesmo tempo e em um terreno árido como é a Filosofia. Embora não tenha optado por ser filósofa clínica, aprendi muito com esses estudos, me tornei uma pessoa melhor e certamente as coisas boas que conquistei como educadora saíram da perspectiva da Filosofia Clínica.

Para a Filosofia Clínica não existe patologia, mesmo que haja coincidência, trabalha-se com o conceito de qualidade de vida. Por exemplo: há pessoa que ninguém, nem a medicina, “cura”. Então, façamos o possível, aprendamos a lidar com a ferida existencial a vida toda. Partindo do princípio de que nada é patológico e usando os referenciais da Filosofia, como Foucault,Nietzsche, Deleuze, Guattari…

Ana Kelly Ferreira Souto
trecho da entrevista para a revista de Filosofia
Goiânia – GO

A boa qualidade da interseção entre o terapeuta e o partilhante, juntamente com o direcionamento clínico são fundamentais para uma boa evolução e qualidade de todo o andamento desta caminhada. Isso abrange ouvir, escutar atentamente, não fazer agendamentos indevidos para não induzir a pessoa. Se dispor a ir ao mundo do outro, estar ligado aos gestos, olhares,cores, cheiros, mudança, novos comportamentos, trocas, movimentos, devires que compõem trajetórias.

É fundamental aprender a dança da interseção, sem atropelar, sem antecipar, sem mutilar sem anular o discurso da pessoa”.(Packter, 1995). De posse desse aporte teórico, o filósofo clínico passa a beneficiar, entender e examinar as problemáticas existenciais do seu partilhante, na prática de consultório. Em Filosofia não há pré-julgamentos, pois não conhecemos a priori a pessoa que chega ao consultório. Não fazemos uso de tipologias (normalidade/patologia), cada ser humano possui seu modo de ser no mundo e uma estrutura própria que se deixa conhecer.

Idalina Krause
Porto Alegre – RS
Trecho do livro A Arte de Compartilhar

“A Estrutura de Pensamento é um conceito da Filosofia Clínica que, pode-se dizer, nasceu de uma perspectiva hegemonicamente humanista, no sentido das correntes psicológicas e também no dos ideais de desenvolvimento pleno e corrente, concreto e existente, da essência humana renascentista e greco-romana, pagã e judaico-cristã. Esta perspectiva é também vida harmoniosa, saudável, amiga e fraterna. Buscam-se existências mais profundas, humanas e éticas. Até que ponto a apropriação dos conceitos aplicados à uma “pessoa” que não é propriamente “pessoa”, e quem dirá sagrada, mas organismo administrativo-social-capitalista-profano, pode ser considerada uma continuidade ou aplicação benfazeja do conceito?”

Leonardo R. Medeiros
Batatais – SP

A Filosofia Clínica nasceu no Brasil na segunda metade do século XX, pelas mãos do filósofo Lúcio Packter (1962…). Mais precisamente, no ano de 1995, surge a primeira turma de formação em Filosofia Clínica, em Porto Alegre.

Da mesma forma que uma criança para nascer necessita de um tempo de gestação, assim foi o que ocorreu com essa corrente de pensamento. Foram mais de quinze anos de pesquisas e estudos para que essa nova metodologia pudesse nascer.

Qual a minha intenção ao destacar no início deste escrito a importância do fato dela ter nascido no Brasil? De modo geral, quando falamos de correntes filosóficas, logo nos reportamos ao pensamento europeu, contudo, estou convencido de que nós também somos capazes de gerar novas formas de ver o mundo.

Pensar que somos meros satélites do pensamento eurocêntrico é, de certo modo, nos assemelharmos ao conceito de homem fraco de Espinosa (1632-1677). Estou cônscio de que também nós, brasileiros, podemos deixar nossa contribuição para a humanidade, como fizeram os gregos quando nos deixaram o legado da Filosofia. E por quê? Porque somos seres dotados da faculdade da razão como eles. Pensar a partir de uma perspectiva tupiniquim significa enfraquecermos nossa alma. Lembro-me aqui da máxima de Karl Marx (1818-1883): “nada que é humano me é estranho”. Quem nos disse que essa era a sua máxima foi sua filha, Eleonor. Isso está no livro “Rumo a Estação Finlândia” de Edmundo Wilson, que foi o primeiro lançamento da Companhia das Letras.

Ivo José Triches
Curitiba – PR
(trecho da obra A Força da Autonomia)

Em Filosofia Clínica, há dois tipos básicos de verdade, a subjetiva e a convencionada. A primeira é aquela que experimentamos, nossas opiniões, nossos conhecimentos, tudo que nos habita, tanto sensorialmente, quanto conceitualmente. E a segunda é aquela consensual, estabelecida em conjunto pelas pessoas. Lúcio Packter não propõe uma bagunça de conceitos, levantar tal tese foi uma forma de sermos conduzidos ao sentido do ouvir como quem vê aquilo que aparece, que se estende diante de nós. É preciso escutar ouvindo as palavras que o outro diz e é na atitude de escuta que reside a essência do escutar.

O primeiro mês de aulas, em 1998, não foi fácil para mim, ficar diante do outro sem defender uma verdade de um único lugar a se chegar. Que coisa! Mas passou. As verdades são conceitos habitando milhares de estruturas de pensamentos. Lúcio Packter foi cuidadoso, fez do filósofo clínico um amigo de escuta seletiva, se ele vai ouvir algo, vai ater-se exclusivamente ao que aparece e deixar-se ser todo ouvidos daquilo que se apresenta. Diz Packter: Essa pessoa não fala do meu ou do seu mundo. É sempre, e de qualquer jeito, o mundo dela, o mundo conforme ela entende e vive.

Segundo o filósofo Garcia-Roza: ser todo ouvidos não é ser ouvidos para tudo.Para o filósofo clínico a verdade pode muito bem estar no coração, como outras vezes na razão. Quem nos dará o parâmetro dessa verdade é o nosso partilhante. Que linda verdade nos diz Mário Quintana: “quem ama inventa as coisas a que ama…”

Rosemary Pedrosa
Fortaleza – CE

Vivemos em uma sociedade complexa dividida em sistemas e subsistemas. Sistemas que se comunicam e sistemas que agem autônomos (autopoesis) como se não dependesse de outros sistemas. Niklas Luhmann, sociólogo alemão, percebeu que a constituição de novos sistemas se dar pela observação, que por sua vez decorre na autodiferenciação. Assim sendo a comunicação tem um valor muito importante no que diz respeito a comunição de sistemas e subsistemas.

Desse modo a separação da sociedade não é uma separação territorial, mas sim uma separação de comunição. Luhmann Identifica três importantes sistemas: sistema biólogico, sistema psíquico, sistema social. Aqui me interessa o sistema Psiquíco, e de modo especial a Filosofia Clínica, abordagem terapêutica desenvolvido por Lúcio Packter, “Interseções entre estrururas de Pensamentos”. Na Abordagem da “estrutura de pensamento” e mais no uso dos “submodos” como forma de desconstruções dos choques existenciais.

O Filósofo Clínico pode se deparar com situações que não do Partilhante ou do Filósofo Clínico. A capacidade resiliênte parece impossível. Nesses casos é importante o Filósofo lembrar que o processo terapêutico se desenvolve através de um complexo de relações sistêmicas sejam a nível imanente, seja em nível transcendente. Nesse caso o processo terapêutico não se fecha em si mesmo e nem se reduz na intersecção do Terapeuta e Partilhante, mas depende de variáveis.

Assim sendo, como bem lembrou Lúcio Packter e Niklas Lumhann, seja no processo social, por meio da análise sistêmica da sociedade, seja na análise de sistemas psíquicos (Estrutura de Pensamento). A comunição sistêmica considera o ser humano em um processo de comunicação continua que pode proporcionar mudanças e despertar mecanismos pessoais que ajudam em resiliência que depende de fatores internos e externos, relação pessoa e com meio social pode proporcionar uma novas redes de relações importantes e necessárias dentro da produção de novos significados e da dinâmica da vida.

Pe. Aires de Sousa Santos
Paderborn – Alemanha

Encontrar teorias que nos digam como devemos direcionar nossa vida, ideologias que mostrem em que é melhor acreditarmos, pensamentos que expliquem quem nós somos, diagnósticos que falem quais são os nossos problemas é fácil, o difícil é achar quem nos respeite como somos e parta disso antes de tudo.

A Filosofia Clínica é uma ética e é ética porque consegue partir da nossa subjetividade, do nosso jeito e forma de ser.

Em Filosofia Clínica o ser humano é o ponto de partida, a medida de todas as coisas, inclusive daquelas que consideramos nossas e daquelas que consideramos dos outros. Uma Clínica Filosófica começa na ética, continua no respeito e busca a compreensão.

Arildo Luiz Marconatto.
Cuiabá – MT

Autogenia… é este um outro nome para a Filosofia Clínica, um lugar de escuta e de silêncio que tensiona a mesmice, revira a vida, fragmenta pré-conceitos, recolhe do ocaso a singularidade perdida. O ser que é com seus submodos é a referência. Sim, é belo observar que existe um processo autógeno natural acontecendo todos os dias, sem intervenção clínica, e descobrir este outro possível onde o filósofo clínico atua, com base na Historicidade, de modo a se conseguir dar à pessoa – segundo a problemática tratada -, um rumo existencial mais recomendável (via qualidade da interseção). Mas … o espírito precisa estar presente… como um farol que se faz luz na ocasião certa e se recolhe quando a luz se fez. A Filosofia Clínica é uma práxis de alteridade. Não há como caricaturar. Aprendi. Contra os perigos do reducionismo, um caleidoscópio de possibilidades. Tsumanis podem acontecer em nossas vidas. Dali, com o poeta, penso: se a alma não é pequena… (tudo) vale a pena!

Aida Lovison
Porto Alegre – RS

Filosofia Clínica zela por aquilo que é humano no humano, seu aspecto existencial e toda gama de critérios, riqueza e complexidade da malha intelectiva e sua gestão no processo de assimilação e acomodação do aspecto histórico-sócio-cultural da pessoa, interpessoal e intrapessoal. Trata-se de um acompanhamento pedagógico, em seu cuidado, escuta e direção. Valorando a emancipação do humano em face da sua capacidade autônoma de gerir sua vida e suas representações.

Adriano Volpini
Batatais – SP

Se tivéssemos todas as respostas às nossas questões… Ah se pudéssemos compreender a nós mesmos… Viver uma eterna apatia, um vazio sem fim, uma saudade sem endereço, sem endereçado, vida inconformada. Infelicidade?!… Isto não condiz, a “regra” do bem viver diz viva feliz! Felicidade é ter saúde, família, trabalho, carro, dinheiro, amigos, joias, religião, enfim. Como assim, se vivo assim e estou assim infeliz?!… A Filosofia Clínica caminha junto na solução de problemas e oportuniza à pessoa organizar as ideias a partir de seus fundamentos e observação de seus processos de construção. No diálogo com o outrem ela é ferramenta do filósofo clínico na construção e ou desconstrução de caminhos para uma vida melhor da pessoa. A Filosofia Clínica tem por base a alteridade – o outro não lhe passa despercebido, mas sim, respeitado na sua especificidade; isto porque ela não tem um tipo de abordagem comum a todas as pessoas, o que é o seu grande diferencial como terapia. Assim sendo, ela propicia à pessoa (partilhante) que partilha sua vivencias no consultório filosófico clínico, a adquirir conhecimento de si mesma a partir da sua maneira própria de ser, pensar, conhecer e atuar no mundo que a rodeia. Considerando, sobretudo, a importância de a pessoa na sua singularidade ter autonomia para criar novas maneiras de viver a vida de forma producente, compreendendo a sua lógica interna, o jeito próprio de pensar a vida e de experienciar suas vivencias.

Ana Almeida Frota
Teresina – PI

É comum um partilhante (pessoa que procura o terapeuta Filósofo Clínico) logo estar participando também de aulas, palestras, viagens de estudos, programas de rádio e diversos eventos sobre a Filosofia Clínica, por iniciativa própria ou à convite do Filósofo Clínico. É simples entender este movimento, na medida em que a Filosofia Clínica, resultado de mais de 20 anos de pesquisas, tornou-se bem mais que um modelo terapêutico e avançou na direção de ser um referencial em situações cotidianas, como relações de trabalho e afetivas, família, decisões e como a pessoa se vê e trafega no mundo e contexto onde habita. A Filosofia Clínica traz em sua essência a humildade de nada saber à priori sobre algo até que sejam cuidadosamente verificados todos os elementos contextuais na historicidade de cada pessoa, fato ou tema. Isso dá à Filosofia Clínica a flexibilidade para debater sobre temas atuais e históricos sem a carga de pré-juízos, frases prontas e de efeito, panfletagem e afirmações categóricas que muito mais servem à quem escreve do que à quem lê ou acompanha. A Filosofia Clínica apresenta então a riqueza em propor, verificar e aprofundar temas ou a existência de uma pessoa, disposta à lidar com toda a amplitude de possibilidades que isso traz, através de uma linguagem simples e convidativa. Em cada clínica, aula, palestra, jornada de estudos, a pessoa encontra elementos que precisa para ajustar suas coordenadas internas, promover possíveis ajustes e aproximar seu caminho existencial daquilo que de fato tem a ver consigo.

Alexandre Lima
Porto Alegre – RS

“A Filosofia Clínica é apenas a Filosofia acadêmica direcionada à clínica, realizada unicamente por filósofos graduados em Faculdades reconhecidas pelo Ministério da Educação”. Com sua usina de força no Instituto Packter, em Porto Alegre, direciona suas reflexões à pesquisa, à clínica e à formação dos filósofos clínicos. Visa, através do seu método dialógico, a busca saudável da vida. Nesta busca saudável da vida, gostaria de aproximar a Filosofia Clínica e a Religião. O verdadeiro sentido da vida é o conhecimento existencial, integral da verdade, a comunhão com ela e a vida nela. Aqui está o ponto crucial para ambas. Para a Filosofia Clínica a verdade é somente aquela da pessoa, subjetiva. Para a Religião, diferenciando-se da Filosofia Clínica, a verdade não é mais um conceito abstrato para se buscar, mas uma pessoa para amar. Cristo é o caminho, a verdade, a vida.

Pe. Nilvado Alves
Roma – Itália

Vejamos alguns exemplos de choque entre os Tópicos da Estrutura de Pensamento de alguns religiosos. Imagine alguém que gostaria de servir a Deus dentro dos ditames bíblicos de santidade, fidelidade a Deus, e tudo isso, de uma maneira muito rigorosa. No entanto, quando liga o computador, não aguenta, clica nas páginas de pornografia. Entra numa tristeza profunda, na próxima santa ceia já não participa. Não se acha em condições de participar de um ato que dá todo o significado para a essência de sua fé, participar do sangue e do corpo de Cristo. Assim vemos criar para si uma Paixão Dominante, comete o mesmo erro constantemente, e toda vez que peca, simplesmente se acha incapaz, e essas coisas começam a repetir em sua vida. Assim, começa a criar uma divisão, e encontramos na sua fala dizeres como: ‘– Quando estou dentro da igreja.’ ‘– Quando estou fora da igreja’. Só que este estar fora da igreja o leva por caminhos que o afundam mais, que causam uma degeneração espiritual totalmente contrário ao que projetou para sua vida.

Jair Pereira Paim
Cuiabá – MT

Será que a violência era menor na época do Brasil colônia, onde seres humanos escravizados eram postos a ferros e outras ‘judieiras’ sem fim? Ou na época de um Brasil entrando na revolução industrial, em que crianças de tenra idade eram obrigadas a se submeter a várias horas de trabalho? Ou a violência contra mulheres e idosos, por parte de homens abestalhados e se julgando grandes chefes de clãs? Ou mesmo autoridades, investidas em altos cargos públicos enviando aos “pelaporco” presos políticos ou não? Seria muito fácil tornar a dizer o que se vê na mídia por todas as partes, mas incorreria no risco de repetir enredos tão batidos, cujo desfecho já se antevê de imediato. Para falar de violência no Brasil, ou seja lá onde for, necessário seria contextualizar historicamente os fatos, ou se abrir mão disso, apenas contaríamos de novo velhas histórias de príncipes e sapos.

Florivaldo Garcia
Ribeirão Preto – SP

Para Merleau-Ponty, a liberdade não é uma dádiva, mas sim uma conquista, realizada pelo homem no mundo (através da ação do homem no mundo). Não se pode dizer que há uma liberdade absoluta, a liberdade é a possibilidade de superar uma situação de fato. “Nascer é ao mesmo tempo nascer do mundo e nascer no mundo. O mundo está já constituído, mas também nunca completamente constituído” (Fenomenologia, pg. 608). Nossa liberdade vem a ser quando nós nascemos no mundo. Quando nascemos somos “jogados” no mundo, entramos na esfera do mundo, que é um campo aberto de possibilidades (a qualquer momento a nosso dispor), o que nos permite a liberdade. Entretanto o homem não nasce totalmente livre. O homem “nasce no mundo e nasce do mundo”, o mundo está constituído, mas também nunca está totalmente constituído. Assim o homem precisa se fazer neste mundo. Pela sua esfera, social, cultural e geográfica, são impostos limites a sua liberdade. Ao mesmo tempo em que nascendo no mundo se abre um vasto campo de possibilidades ao homem, esse mesmo mundo impõe limites à liberdade.

Pedro de Freitas Júnior
Florianópolis – SC

“O objetivo de um filósofo clínico não é julgar, replicar, rebater ou convencer; mas investigar, compreender, pensar junto com o partilhante. Assim, acompanhando os relatos das vivências das pessoas é possível observar que, embora pareça que só você pense diferente, muitos de nós pensamos, sentimos, compreendemos, agimos e somos de maneiras radicalmente distintas do que é considerado “normal”, “comum”. Se conseguíssemos ouvir mais os outros, observar sem julgar e sem querer convencer o outro de que estamos certos, e se conseguíssemos interlocutores com a mesma postura de escuta atenta, de disposição para pensar junto conosco, talvez percebêssemos que esse “ver, pensar e sentir diferente de todo mundo” é muito mais comum do que imaginamos. Consequentemente, a solidão de ser o único ser no universo a não partilhar um mundo ou um sistema pré-estabelecido seria minimizada. Você já observou como as pessoas enxergam o mundo de modo tão singular? Já teve curiosidade em saber como as pessoas constroem suas visões de mundo? Por que pensam como pensam? São como são? Já observou isso em você mesmo? A solidão de constatar nossa “inadequação” ao padrão instituído, ao “ser como todo mundo é”, pode, de um lado, nos entristecer, nos deprimir. Pode excluir, calar, isolar; pode provocar sofrimento e estagnação na tentativa de uma pseudo-adequação a um sistema ou opinião vigentes. De outro lado, pode ser exatamente essa solidão a nos levar a dizer algo em nosso próprio nome, a suscitar o surgimento de uma novidade radical, a propiciar um olhar para nosso modo de ser, nossas forças, fragilidades e medos, e, consequentemente, nos permitir a construção de formas de vida adequadas a nossas necessidades”.

Monica Aiub
São Paulo – SP

Podemos constatar que a individualidade consiste em uma dimensão ontológica do ser. Mas como podemos compreender esta individualidade no contexto da representação, e consequentemente na Clínica Filosófica? É importante notar que nem sempre uma ontologia do ser aos moldes universais é aceita na clínica. Nossa proposta não é compreender os indivíduos, mas aquele indivíduo, aquele que nos procura, que nos solicita. Único, indiviso, compreendê-lo nesta dimensão, este é o nosso desafio. Ora, conceitualmente, a individualidade demarcada por Schopenhauer satisfaz plenamente a necessidade metodológica no processo clínico, a saber: “cada indivíduo requer ser estudado e aprofundado por si mesmo”,. A individualidade é o caráter especial que cada pessoa possui diferenciando-se das demais. A pessoa humana é considerada a partir de suas características particulares, tanto físicas – o corpo – quanto suas manifestações subjetivas. Na individualidade buscaremos o modo de ser do indivíduo. Como este indivíduo se comporta mediante os fenômenos de sua consciência? Que representação possui do mundo que o cerca? Que certeza carrega consigo para assumir esta ou aquela postura? A partir da escuta da história de vida de seu partilhante, o Filósofo procura compreender e identificar na malha intelectiva do indivíduo, os pontos conflitantes que podem causar desconfortos, e em alguns casos ser até profilático. Esse trabalho é feito a partir de um exame cuidadoso através dos Exames Categoriais e posterior montagem da Estrutura de Pensamento. É importante ressaltar que nem sempre teremos conhecimento da natureza de determinadas representações. Por isso em clínica nem sempre buscar a causa pode significar a satisfação de resultados.

Rozinaldo Duarte
Salvador – BA

(sobre a amizade com a Filosofia) Fiquei bastante espantado quando ela me disse que muitos daqueles que se diziam seus amigos nunca haviam olhado em seus olhos e compreendido que ela era tão humana quanto eles. Por vezes a encontrei triste. E quando perguntava o motivo de tamanha tristeza ela respondia com os olhos lacrimosos: “Esqueceram novamente da vida quando escreveram sobre mim”.Certa vez pediu minha ajuda para fazer uma limpeza em sua casa. Recolhemos livros que nem Deus conseguiria entender. Guardamos tudo em caixas e mais caixas. Aos poucos aquela casa triste e obscura foi ganhando tonalidades de vida. Trocamos as cortinas, colocamos flores nos vasos, compramos livros de poemas… Plantamos um lindo jardim. Estamos a cada dia nos tornando mais amigos. Ontem mesmo a visitei. Ela estava pensativa. Contou-me que haviam escrito um novo livro sobre sua vida. Disse-me que tem se sentido velha. Dei risadas e lhe disse para não se preocupar com isso, pois ela é bem mais nova que muitos de seus autores…

Flávio Sobreiro
Campinas – SP

Diante da riqueza e diversidade do universo humano, no qual cada pessoa se constitui, se manifesta, pensa, sente e age de forma singular, trazendo em si uma história de vida exclusiva e questões únicas a se considerar, tenho para mim que a Filosofia Clínica é abençoado e poderoso recurso existencial na Terra em favor do homem. Abordagem terapêutica original, a Filosofia Clínica é uma das raras propostas de nossa época capaz de permitir tratar e considerar um ser humano como um ser humano. Conhecê-la é um privilégio que está ao nosso alcance e vivenciá-la é um verdadeiro exercício de humanismo, pois se constitui numa chama de progresso, de esperança, de alívio e encaminhamento da frágil e bela alma humana para a eternidade dos tempos.

Jeferson Ricardo Spode Flores
Cascavel – PR

No consultório, recebo queixas de pais que não conseguem encontrar seus filhos. Mas ao dizerem isso, também afirmam que almoçam juntos, tem um convívio familiar muito bom, os levam ao colégio e ao médico quando necessário, no entanto, não os encontram existencialmente, para o desejado diálogo. Na Filosofia Clínica, essa situação denominamos de espacialidade. Significa como localizar existencialmente uma pessoa. Historicamente localizamos pelo corpo, vemos o corpo e dizemos que a pessoa esta naquele lugar, nesse lugar. Às vezes, algumas pessoas, quando querem localizar uma pessoa, procuram pelo corpo. Segundo o filósofo clínico Lúcio Packter, “isso usualmente se revela muito pobre, bastante distante da realidade de algumas pessoas. Encontrar uma pessoa vai muito alem disso!”. Talvez, compreender isso, diminua certos problemas existentes hoje nas relações com os filhos adolescentes.

Wockton Santos
Cuiaba – MT

Algumas vezes é necessário sorver o leite emanado da seringueira e da amapazeira. O leite da seringueira já deixou muito britânico sonhando como magnata em Liverpol, já construiu o porto de Manaus, o Teatro Amazonas, o Telegrafo direto com London, o primeiro Bonde elétrico do Brasil, rua calçadas com pedras importadas, bueiros eficientes, estação de tratamento de águas servidas que nunca foi inaugurada e que hoje se chama de Teatro Chaminé. Ia esquecendo, como se pode ter Bonde Elétrico e ruas iluminadas sem eletricidade, uma novidade da Europa iluminista. Diria que não só somos anfíbios, mas réptil, um pouco ave e um pouco mamífero. Quando digo réptil é porque nos arrastamos por entre as arvores da imensidão de tanto verde cobiçado pelas não-potencias que sonham que um dia isso será deles. Esta terra é de quem está em cima dela, os que usam e usufruem seus bens são passageiros, aqui só permanecem as pessoas que sabem respirar debaixo dágua. Cada uma se sente ave quando sonha sair para o outro mundo virtual jogado na telinha global.

Henrique Freitas
Manaus – AM

Ninguém sai ileso de um relacionamento humano, seja ele familiar, amoroso, profissional, e cada pessoa possui uma forma singular de ser e de enfrentar cada situação. Isso implica que a minha forma de me posicionar frente às coisas é apenas uma das muitas formas possíveis e que nem sempre ela pode ser tomada como modelo para quem quer que seja.

Everton Corso
Três Palmeiras – RS

Diante das exposições e ensinamentos da Filosofia Clínica, somos surpreendidos com questionamentos que colocam em cheque determinadas verdades, conceitos ou pré-juízos diante do que é certo ou errado, bom ou ruim, entre outras “verdades absolutas”, gerando choques fortíssimos para alguns alunos que, sentindo-se confrontados diante dessas suas verdades, por muitas vezes se fecham ou se frustram prematuramente, em alguns casos chegando ao ponto de abandonar o estudo, abortando o processo de compreensão com profundidade da fundamentação da Clínica Filosófica. A Filosofia Clínica na perspectiva da psicoterapia do indivíduo tem a obrigação de contribuir com responsabilidade, levando em conta as características e particularidades que envolvem a pessoa em seu amplo contexto, para que os resultados sejam desejáveis, sem expor a pessoa a riscos. Tentar ajudar um indivíduo a partir de verdades pré-estabelecidas, sem compreender o seu mundo, as suas características e especificidades únicas, é algo que sujeita ao risco de remeter a entendimentos descontextualizados e com consequências muitas vezes irreversíveis e irreparáveis no que se refere à clínica.

Idson Alves
Chapecó – SC

 

Quem poderá dizer que ela, a Filosofia Clínica, não tem a sua razão de ser? Eu prefiro ser paciente e esperar. Prefiro estar ao lado daqueles que não lhe negam tempo para que possa evidenciar o seu lado humano. Minhas críticas não serão no sentido de condená-la de imediato, mas de contribuir para que a mesma possa apresentar uma fisionomia bem delineada e os frutos esperados. Mostre-me do que és capaz, sem pressa!

Antonio Vidal Nunes
Vitória – ES

Meditava por esses dias sobre as consequências da ação sob duas hipóteses: quando decidimos, agimos, escolhemos, em observação a juízos autogênicos, (contextualizados em intenção, circunstâncias, tempo, espaço, relação – Categorias – Filosofia Clínica), ou quando a ação ocorre por mecanicidade (George Gurdjieff). Na ação por “mecanicidade”, os conceitos de “inércia” (física) ou “rebanho” (Nietzsche) podem ser aplicados, quando propondo e retrucando, o grosso da humanidade seguiria caoticamente, com noções improvisadas (sombras, fragmentos distorcidos) de estrutura, representação, fenomenologia, ética, etc. Seria necessário um melhor uso da linguagem, das ferramentas do pensamento: a otimização dos recursos da E.P. e dos submodos – um domínio epistemológico completo da própria estrutura e autogenia, para futurizar.

Cassiano Veronese
Rondonópolis – MT

Eu me arriscaria a dizer que a pior de todas as decisões é procurar fora o que de fato está dentro de cada um de nós. Muito bem. Mas o que é que eu tenho dentro de mim que difere tanto daquilo que o outro tem dentro dele? O que tenho são os sonhos, os desejos, assim como as decepções, as frustrações, o vazio, as tristezas, as emoções… Cada um, em particular, vai sentir as coisas a seu modo. O resto é mero adjetivo… Não há uma receita pronta para isso. Mesmo que o outro se propusesse a externar tudo aquilo que ele acha que sabe sobre sua pessoa, ainda assim eu compreenderia muito pouco sobre ele. O máximo que eu conseguiria, seria uma reinterpretação de sua representação de mundo! E cada um representa o mundo de acordo com o que conseguiu estruturar para si… A propósito o ser humano parece ser um ser para a ascensão.

Ercílio Facanalli
Campinas – SP

A Filosofia clinica mantém-se dentro de uma perspectiva ética da alteridade, propondo-se ir ao mundo do outro que sofre existencialmente para lhe possibilitar o bem estar existencial. Na própria historicidade do partilhante, pode-se detectar problemas de conduta ética de ordem existencial ou de formação das estruturas mentais, na infância — como ocorre no exemplo da criança que não aceita a sua pobreza e cria uma estrutura subjetiva de que é rico passando a rejeitar a sua realidade e a fantasiar uma situação irreal de riqueza — mas os problemas de conduta ética também e podem ter origem biológica. O que vai mostrar a causa das condutas éticas observáveis é o conhecimento da história de cada um e por isso os procedimentos para as conclusões serão diferenciados levando-se em conta as estruturas de pensamento individualizadas.

Mariluze Ferreira
São João Del Rei -MG

O grande desafio do terapeuta, e ai incluindo todas as terapias, talvez não seja a absorção de conteúdos, nem o labor da formação e nem mesmo os mundos que se fenomenalizam diante de si, na pessoa do outro. O maior desafio talvez seja ter que conflitar constantemente seus valores, com os valores que ali se desnudam e ainda assim não pré-conceituar, não direcionar, não significar… Bem dizia o velho Sartre: “Meu inferno são os outros”, pois o diferente atua em mim como um fator revelador, que coloca em questionamento também a minha história, meu ser, meus valores, e especialmente a minha dificuldade de lidar com a alteridade.

Andrea Vermont – Uberlândia

O filósofo deve tomar muito cuidado com as questões que vai enraizar, há histórias que podem realmente encantar, mas o filosofo nunca pode perder de vista a postura ética e o procedimento de seu trabalho. Considere que o filosofo esteja enraizando uma questão que lhe pareça simples, e quanto mais vai aprofundando mais questões vão aparecendo e percebe-se que há um grande Iceberg escondido. O que vale considerar aqui, além da existência do Iceberg, é a relevância de se mexer com ele.

Clailton Oliveira – Sorocaba, São Paulo

Na Filosofia Clinica a preocupação não se refere apenas em libertar de doenças, mas principalmente dar condição ao partilhante de relatar suas dores, se houverem dores, ou simplesmente partilhar sua representação de mundo em um processo terapêutico que possa lhe ser salutar e agradável, e caso seja de sua vontade, conviver com seus males existenciais da forma que melhor lhe convier e, sobretudo com uma melhor qualidade de vida.

Amiltomério Ferreira de Alcântara – Rio Verde, Goiás

A Filosofia Clínica compreende que o conhecimento, ou a forma de conhecer, baseado unicamente na razão pura, não pode ser considerado um processo universal, válido para todos. As formas, as maneiras como ocorre o conhecimento são tão diversas como diversos são os indivíduos existentes no mundo. Alguns tem a tendência, a facilidade para conhecer lendo, outros aprendem melhor ouvindo, alguns assimilam melhor observando outros, há pessoas que aprendem meditando, existem aqueles ainda, que não dão valor algum aos dados teóricos mas sim à vivencia prática ou emocional no aprendizado, o inverso também é verdadeiro, e daí por diante.

José Carlos Salerno – Pitangueiras

Se pensarmos o cinema em uma de suas características como sendo reprodutora chegaremos a um modelo suposto do que seja o real. A Caverna de Platão pode ser vista como uma primeira ideia de representação dos modos de como funciona a proposta de utilização de filmes no ensino da FC. O que é a parede da caverna senão uma grande tela onde é projetada a imagem da real figura que passa pela abertura, onde uma fogueira (luz) fornece a claridade para o que ocorre do lado de dentro, o que vejo pode ser determinado pelo meu ângulo de visão e a projeção que faço dentro de minha historicidade.

Márcio José Andrade da Silva – Campinas

Um encontro onde o próprio encontro se faz “Pharmakon” e se desdobra em direção ao ser. Através das diferentes formas de linguagem e modos de ser no mundo faz-se Filosofia Clínica. Navegando pelos caminhos da alma, adequando-se ( ou não) a singularidades. Às vezes transformando, outras vezes somente observando, cuidando, mas sempre escutando profundamente ao outro.

Fernanda Moura – México

O exercício da Filosofia Clinica antes de tudo vai nos tornando mais eficientes na ética do existir, assim quando em contato com a parte teórica ,o método e as ideias vão nos propiciando uma resignificação para um novo mundo de possibilidades , que irão desdobrar ao infinito . Estas ferramentas tem uma potencia inesgotável quando o assunto é respeitar o outro na sua singularidade e é nessa linha que na pratica o Filosofo Clinico se mune de humanidade para criar um espaço tão único quanto os múltiplos horizonte que cada partilhante poderá conter em sua estrutura de pensamento.

Alba Regina Bonotto – Curitiba

No silêncio de uma historicidade e nas expressividades do exercício da clínica aprendo a olhar o potencial do SER (partilhante) por inteiro, que nos apresenta em pedaços precisando muitas vezes que somente o escutemos para tornar-se inteiro de novo…e quando esta história segue o seu curso e vai se completando a cada nova sessão a esperança, as forças, a alegria, o nascer de novo, a transformação, o recomeço, o possível e o acreditar se mostram para que tudo se torne às claras, para a reconstrução de um construir, uma nova história recomeça e eu me vejo como alguém que apenas mostrou o caminho a ser trilhado. Fico grata pela oportunidade de conhecer mais um SER HUMANO. Obrigado por me ensinarem o exercício de me tornar cada vez mais HUMANA.

Valdirene Barbosa Ferreira – Teresina